Por Eros Nascimento e Paulo Bracarense
Artigo 3 de 4 sobre o livro O novo perfil eleitoral do Brasil: como pensa e como vota o brasileiro
A mesa de bar
Foi quase por acidente. Um sábado, o bar da esquina, a mesa de plástico meia bamba, a cerveja que Gabriel pagou com o dinheiro que fez com o Uber na sexta. Estavam os dois ali e começaram a conversar, quase como por acidente, quase como por destino. Começaram pela pauta errada, a “ideologia de gênero” de um vídeo que ele recebeu, e a conversa quase acabou ali, meio acalorada. Mas continuaram entre uma cerveja e outra. Ela contou que a meta do telemarketing subiu e o salário não; ele contou que a comissão da loja não paga o aluguel e que o Uber, descontado o combustível, é quase nada. Ela falou do primo morto pela polícia aos dezessete, na esquina de baixo; ele, do amigo que o tráfico levou por engano e devolveu com o rosto marcado. Ela falou do posto de saúde que marca consulta para daqui a quatro meses e dos exames que não consegue fazer nunca para a mãe; ele, do ônibus lotado que leva mais de uma hora até o shopping. Nenhum dos dois realmente espera se aposentar. Cada um deles pensa em comprar uma casa própria para criar os filhos que ainda não têm. Os dois querem ganhar mais, ter um futuro menos incerto, construir uma família e ser felizes, e nenhum dos dois está exatamente feliz com a vida que tem. Não chegaram a falar de Lula nem de Flávio. Não precisaram.
Gabriel e Helena moram na mesma rua do Capão Redondo, na zona sul de São Paulo, e há anos se cumprimentam no portão sem conversar sobre quase nada. Gabriel tem 23 anos, é um rapaz considerado branco pelos padrões brasileiros, tem uma namorada há alguns meses, vende tênis numa loja de shopping, com carteira assinada, que acha uma “prisão” porque paga mal e não tem flexibilidade de horário, além de ter que trabalhar praticamente seis dias por semana. Às vezes, ele faz Uber nos fins de semana para juntar algum dinheiro, talvez abrir um negócio, ainda não sabe direito. Fez o ENEM algumas vezes, mas não entrou no que queria, então, por ora, continua tocando a vida como pode. A família é evangélica; ele vai ao culto quando a mãe insiste, não tem certeza do que acredita, mas carrega os valores da casa: família, trabalho duro, mérito, “cada um faz o que quer, desde que não venha me atrapalhar”. Acha (está mais para ter certeza) que político é tudo farinha do mesmo saco. Em outubro, vai votar em Flávio Bolsonaro porque está cansado de mais do mesmo.
Helena tem 22 anos, é uma moça meio parda, meio preta, assumidamente lésbica, filha de uma família católica que se benze quando ela conta que foi ao terreiro de candomblé com uma amiga. Cursa Administração à noite, com bolsa do Prouni, e passa o dia num telemarketing com fone no ouvido e meta na tela. Entrou na universidade por uma cota e não pede desculpas por isso. Sabe, desde a primeira entrevista de emprego, que a meritocracia sempre foi uma palavra difícil para gente como ela. Vai votar em Lula, mas sem muito entusiasmo, em parte porque foi o Prouni que a colocou na sala de aula, em parte por falta de opção. Honestamente, ela queria mais opções políticas. Também está um pouco cansada das mesmas notícias de sempre; às vezes, até parece que a vida anda sem propósito. Mas reconhece que o “outro lado” pode ameaçar sua própria existência. Sobre casamento entre pessoas LGBT, cotas, aborto, “ideologia de gênero” e polícia, Gabriel e Helena praticamente não concordam em absolutamente nada.
O que aconteceu naquela mesa está nos dados da pesquisa nacional, de âmbito qualitativo e quantitativo, realizada pela Fundação João Mangabeira (FJM) sobre “Como pensa e como vota o brasileiro”, que resultou no livro “O novo perfil eleitoral do Brasil”, no qual se baseia este artigo. Nos resultados apresentados a seguir, o recorte de jovens corresponde a 864 entrevistados de 16 a 35 anos.
Existe hoje, entre os jovens, uma divisão de percepções que ajuda a explicar por que Gabriel e Helena pensam de maneira tão diferente sobre alguns temas e, apesar disso, conseguem conversar quando o assunto são pautas tradicionais de classe. Essa divisão aparece com razoável clareza nas estatísticas do estudo: 42% afirmam que existe “ideologia de gênero” nas escolas, enquanto 41% negam; e 48% defendem mais liberdade de ação para a polícia, ante 45% que discordam. Em outros temas, os dados indicam maiorias estreitas: 54% consideram que o governo erra mais do que acerta em saúde e educação; 51% dizem que a política atual não oferece boas perspectivas à juventude; e 50% acreditam que o aumento do salário mínimo melhora a economia. Além disso, 42% não esperam se aposentar, o que indica uma insegurança relevante em relação ao futuro.
A convergência maior surge, porém, nos temas que sempre foram tradicionais para o campo progressista, ou seja, desigualdade, papel do Estado, trabalho: 73% apontam a desigualdade como o principal problema do Brasil; 66% afirmam que o governo federal não está presente em seu bairro; e 65% valorizam os sindicatos.
No final, ambos querem um trabalho que pague o suficiente para viver e ter sonhos.
Isso não significa que as pautas de identidade e de costumes sejam menos legítimas ou menos urgentes; para Helena, elas são a diferença entre estar na universidade e não estar. Significa que não são o terreno em que Gabriel e Helena podem se encontrar e que a política que quiser falar com a juventude inteira, e não somente com a metade que ainda lhe pertence, terá de considerar isso, mesmo que, por vezes, essa metade demonstre pouco entusiasmo.
O jovem quer a dignidade da autonomia: um Estado que lhe dê o que precisa, mas que saia do caminho para suas microutopias.
Uma inflexão, não uma conversão
O voto jovem brasileiro nunca foi um bloco. Em levantamentos selecionados da reta final do segundo turno entre eleitores de 16 a 24 anos, o Datafolha registrou empate em 2014 (45% a 45%), vantagem numérica de Haddad em 2018 (45% a 42%), mas dentro da incerteza do segmento, e vantagem de Lula em 2022 (51% a 43%). Esses eram os números das pesquisas de opinião, não os votos oficiais. Mas servem apenas para mostrar, a título de comparação, que, de muitas formas, a juventude sempre esteve dividida, com uma inclinação muito moderada para o campo progressista. Este ano, porém, mesmo essa leve inclinação para o campo progressista parece estar sofrendo uma inflexão. Pesquisa Datafolha divulgada na quarta-feira, dia 01 de setembro, entre jovens de 16 a 24 anos, mostra Flávio Bolsonaro com 48% e Lula com 45%, com 8% entre brancos/nulos/abstenções. Na série comparada apresentada, o candidato da direita aparece numericamente à frente pela primeira vez entre os jovens, embora a comparação envolva institutos, faixas etárias e desenhos amostrais distintos.
Entre 2022 e setembro de 2026, a participação agregada do candidato do PT nos levantamentos comparados passou de 51% para 45%, enquanto brancos, nulos, indecisos e declarações de que não votarão passaram de 6% para 8%. Esses movimentos não permitem identificar migração individual, porque as pesquisas podem estar usando amostras e metodologias diferentes entre os anos. Ainda assim, a variação agregada é compatível com perda de apoio ao campo progressista e um leve aumento do contingente sem preferência eleitoral declarada.
Esses dados podem ser qualificados em parte pela pesquisa da Fundação João Mangabeira. Entre os jovens, de acordo com os dados, 80% afirmam que a política é importante, 72% consideram a democracia sempre o melhor regime, 66% acham os partidos necessários e 54% querem que o voto continue obrigatório. Essa valorização das instituições, porém, convive com um forte desencanto: 70,5% dizem que a política lhes desperta mais raiva do que esperança, 73,5% evitam falar sobre o assunto para não criar conflitos e 57% raramente ou nunca conversam a respeito. Além disso, um terço (33%) não sabe ou não quer dizer onde se coloca no espectro ideológico. A mesma resistência aparece quando são questionados sobre grupos políticos específicos: 17% não respondem se o PT faz mais bem do que mal e 16% adotam a mesma postura em relação ao bolsonarismo. Não é indiferença, mas a recusa de quem não se reconhece em nenhum dos times.
A pesquisa dimensionou essa orfandade ao mostrar que, quando perguntados se a política brasileira atual oferece boas perspectivas para a juventude nos próximos anos, 51% dos jovens discordam. Esse desalento também se reflete na maneira como enxergam o país: 47,5% acreditam que o Brasil é o país do futuro e 70% concordam total ou parcialmente que têm orgulho do povo brasileiro.
A hegemonia sobre essa geração está em disputa, e nenhum dos lados a venceu. A direita está falando de empoderamento sem oferecer nada de material; a esquerda está falando de reconhecimento sem mudar a meta do telemarketing. Na comunicação, a direita obtém mais sucesso entre a juventude porque transmite um discurso emocional, de identidade e pertencimento, e oferece narrativas de liberdade, trabalho duro e valores de família que dão sensação de propósito. Onde a esquerda fala em vitimização, a direita vira a chave para o empoderamento, mais sedutor para quem se vê muitas vezes como um “batalhador solitário”. Onde a esquerda fala por vezes de forma institucional, burocrática e acadêmica, a direita fala de forma memética: vídeos de segundos, humor, autenticidade “sem filtro”, o político que se faz de influenciador. No meio, porém, uma parte importante dessa geração simplesmente desistiu de escolher.
A resposta não passa por ensinar a Gabriel que a CLT é boa para ele, nem por convencer Helena de que a cota basta. Passa por um projeto de país que responda, ao mesmo tempo, aos dois: emprego que pague, transporte que chegue, posto que atenda, rua em que se possa voltar do trabalho à noite. Passa por tratar a autonomia que Gabriel reivindica não como ideologia inimiga, mas como a forma que a dignidade assumiu para quem cresceu sem promessa, e por tratar o reconhecimento que Helena conquistou não como o fim da conversa, mas como o começo. Na Utopia de Thomas More, a redenção era uma construção coletiva, racional, numa ilha organizada para o bem comum. Hoje Gabriel e Helena vivem cada um em suas próprias ilhas. É preciso devolver aos dois condições para sonhar com novos ideais e sonhos coletivos.
Sobre os autores
Eros Nascimento, paulistano (1988), é doutor em Desenvolvimento Social pela Universidade Estadual de Montes Claros, com pesquisa sobre políticas de segurança alimentar e cooperação internacional na América Latina. É mestre e bacharel em Administração Pública e Governo pela Fundação Getulio Vargas, com foco em desenvolvimento local e combate à pobreza. Sua trajetória profissional intercala pesquisa aplicada e atuação em organizações globais, incluindo a Missão Diplomática dos Estados Unidos no Brasil, a coordenação de estudos comparados no grupo The Economist, pesquisas no Instituto de Pesquisas Econômicas da Alemanha e na QCP Consultoria Inteligência em Políticas Públicas e Pesquisas.
Paulo Bracarense, curitibano (1957), é bacharel em Estatística, mestre em Experimentação Agronômica pela USP, mestre em Políticas Públicas pela Humboldt-Viadrina School of Governance, na Alemanha, e doutor em Engenharia de Produção pela UFSC/University of South Florida, nos EUA. Foi assessor do ministro da Ciência e Tecnologia, presidente do Conselho Nacional das Fundações de Apoio à Pesquisa e secretário do Trabalho e Emprego da Prefeitura Municipal de Curitiba. Atualmente, é secretário de Relações Internacionais do PSB. É autor de mais de vinte livros, entre obras técnicas de estatística e conteúdos relacionados a questões sociais, econômicas e ambientais.







