Voto feminino: O desafio agora é outro
Lídice da Mata*

Quase um século após a conquista do direito de votar, as mulheres enfrentam agora um novo desafio: reduzir a sub-representação nos espaços legislativos e também no Poder Executivo.
Nas últimas quatro eleições, tivemos avanços, é verdade, mas o abismo quantitativo entre homens e mulheres nos espaços de poder ainda se mantém. Dados do Tribunal Superior Eleitoral sobre o pleito de 2024 mostram que a presença feminina nas câmaras de vereadores e vereadoras registrou um pequeno avanço, saindo de 16,1% para 18,2%. Contudo, esse número revela que ainda não conseguimos promover as transformações necessárias para que as mulheres conquistem a tão sonhada igualdade de direitos.
Ao analisarmos o cenário nacional, vemos que as mulheres ocupam ainda menos cadeiras na Câmara dos Deputados e no Senado Federal. Em 2022, o Brasil ocupava a 129ª posição no ranking da União Interparlamentar, com apenas 17,7% dos assentos na Câmara dos Deputados ocupados por mulheres. Embora representemos aproximadamente 52% do eleitorado brasileiro, nossa participação como candidatas e eleitas continua desproporcionalmente baixa.
E, apesar das conquistas que já tivemos, ainda enfrentamos grandes dificuldades para superar a sub-representação nas casas legislativas, como a Câmara e o Senado.
Entre os fatores que contribuem para essa situação está a pobreza das mulheres e a desigualdade econômica. Muitas de nós recebemos os menores salários, e nossas lideranças dos movimentos populares não têm os recursos para viabilizar uma campanha eleitoral. Mesmo com a conquista dos 30% do fundo eleitoral, esses recursos ainda são insuficientes para promover uma mudança radical na presença das mulheres nos parlamentos.
Apesar de todos esses obstáculos, continuamos lutando e conquistando vitórias. No entanto, é fundamental que os partidos políticos se empenhem em promover a presença feminina em suas direções, apoiando programas e projetos de qualificação profissional e formação política para mulheres. Isso ajudará a fortalecer a ligação das lideranças femininas com suas bases.
A presença feminina nos espaços de poder melhora a vida das pessoas e das mulheres. Temos a Lei Maria da Penha, referência mundial no combate à violência, a Lei Mariana Ferrer, de autoria do nosso mandato, que impede que as mulheres sofram humilhações em depoimentos à Polícia e à Justiça, entre outras iniciativas.
A conquista do voto feminino foi um marco, mas agora enfrentamos novos desafios, novas lutas e novas vitórias no horizonte.
* Deputada Federal PSB-BA, Vice-líder do Governo na Câmara dos Deputados

CONTRASTE