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sábado 25 março 2017
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Arraes 100 anos

miguel-arraes-100-anos-015Programas que produziram a melhoria da qualidade de vida no sertão de Pernambuco serviram como exemplos para outros estados e para o governo federal

Expressar um sentimento político positivo nos dias atuais está mesmo difícil. As crises éticas, econômicas, políticas confrontam a sociedade com a realidade dos fatos e a empurram na busca de um novo modelo de representação. Os partidos políticos se multiplicam no país, lideranças amargam baixos índices de aceitação pública, nomes de personalidades são ventilados para disputa eleitoral, muitos sem vinculação partidária, salvadores da pátria, encaixam discursos ocasionais.

Neste conflituoso e complexo cenário é importante reconhecer o exemplo de um homem que persistiu no movimento democrático, “um olhar na História, uma visão no futuro”, que vestiu-se dos ideais e do desejo da maioria da população, teve a vida perseguida, impiedosamente modificada e divorciada por anos, no exílio. É imensurável o vácuo imposto pelo golpe militar na relação entre o governador Miguel Arraes, que estaria completando 100 anos, e sua disposição de servir intermitentemente aos pernambucanos e brasileiros.

Foi deposto no exercício do cargo conquistado nas urnas e obrigado a deixar o Campo das Princesas, no Recife, cidade à qual retornou nos braços do povo em 1979. Durante 15 anos, foi mantido afastado pelos militares, preso, recusado em países da América Latina, finalmente acolhido pela Argélia, país hospitaleiro e destino para perseguidos políticos. Lá, o governador Miguel Arraes obteve novo passaporte, viajou o mundo, expôs a tortura e o regime de exceção que mancham nossa identidade nacional com mais de duas décadas de privações, abuso de autoridade, censura e violações dos direitos humanos.

Arraes conheceu o mundo, na sua volta compartilhou os ensinamentos do socialismo contemporâneo, os princípios democráticos e a igualdade de oportunidades, o incentivo à inovação por todo o Brasil e transformou Pernambuco, onde governou por mais duas vezes, sempre mantendo inviolável a forte característica cultural que molda, ostenta e acrescenta à miscigenação do Brasil.

É a maior referência política das garantias e conquistas sociais do Nordeste brasileiro. Programas que produziram a melhoria da qualidade de vida no sertão de Pernambuco serviram como exemplos para outros estados e para o governo federal reproduzi-los nacionalmente. Arraes escreveu seu nome na história política nacional pelo protagonismo que exerceu numa escalada de acontecimentos que romperam o establishment e conduziram o Brasil a profundas mudanças institucionais em diversos momentos importantes, como a resistência à ditadura, o processo de redemocratização e união em torno da campanha das Diretas Já (um marco da cidadania), a eficácia de Miguel Arraes em apoiar o governo de união nacional e o Plano Real, no governo do presidente Itamar Franco, mesmo contra radicais que defendiam o lema “quanto pior melhor”.

Nestes tempos de incertezas, tumultos sociais, efervescência nas cidades, nas escolas, universidades e no mundo do trabalho, não é mera coincidência que alguns fatos ou sintomas estejam em sintonia ou remetam para alguma passagem da nossa história. Conhecer o legado e a perseverança de políticos da estatura de Miguel Arraes é fundamental para entender as raízes da democracia, da liberdade de expressão que se consolidam há 32 anos no país e são combustíveis para enterrar o atraso intelectual, os abusos, o autoritarismo e todas as privações à liberdade de se manifestar.

Renato Casagrande é ex-governador do Espírito Santo e presidente da Fundação João Mangabeira

Fonte: O Globo




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